Crianças aprendem por observação, elas literalmente imitam o que veem e escutam. A forma como os pais se referem aos educadores em casa constrói, desde cedo, a percepção que os pequenos têm sobre autoridade e respeito. Mais do que planejar uma lembrancinha na véspera do 15 de outubro, a data pode ser encarada como um convite para uma reflexão em família: como estamos ensinando nossos filhos a reconhecerem o trabalho dos professores e mestres?
A verdadeira homenagem começa no cotidiano, na escuta e na construção de um olhar humano sobre a figura do professor: com erros e acertos, alguém que dedica seu trabalho ao desenvolvimento.
A educação é um pilar fundamental para qualquer sociedade, e uma das peças centrais desse processo é a figura do professor. Ser professor nos dias de hoje exige equilibrar paixão, vocação e resiliência diante de desafios diários — que vão desde a falta de engajamento, de infraestrutura, de apoio do governo e problemas de disciplina em sala de aula até a integração de novas tecnologias e a busca constante por uma parceria sólida com as famílias.
Para ir além da teoria e entender a real rotina de quem leciona na educação, abrimos espaço em nosso blog para uma conversa franca com profissionais da rede de ensino. Eles compartilham suas vivências, os bastidores da profissão e o que realmente faz a diferença na relação com os alunos e as famílias.
Reunimos os relatos e vivências das professoras Andreia Narciso, que atua no Ensino Médio da rede particular em Uberaba, e a professora Carolina Rocha Neves Felix, regente do Ensino Fundamental I na rede pública municipal de Uberlândia.
Com a palavra, Andreia Narciso
- Segmento em que leciona: Ensino Médio
- Cidade/Rede: Uberaba/ Particular
- Uma palavra que define ser professor(a): Propósito
1. O que a levou a escolher a carreira de docente? O que te motiva a continuar na profissão?
Tive algumas grandes referências para seguir na docência que foram meus professores do ensino básico e da graduação e minha mãe que era pedagoga. Ainda no ensino médio eu já tinha feito a escolha de ser professora de Biologia. Descobri na trajetória, que minha escolha foi desafiadora, uma vez que nos últimos anos essa profissão vem enfrentando muitos desafios.
Sempre que finalizo minhas aulas faço uma auto reflexão sobre a relevância dela. Mas meu principal parâmetro, obviamente, são os alunos. Sempre que ouço um “obrigada professora” na finalização de uma aula sei que cumpri meu papel. A participação dos alunos e as trocas de ideias e experiências em sala também me motivam muito na continuidade do trabalho. Eu aprendo muito com meus alunos e isso enriquece bastante a minha formação.
2. Como você avalia a eficácia do seu ensino e o engajamento dos seus alunos na rotina escolar?
Temos muitos desafios na educação: salas de aula lotadas, indisciplina, desvalorização do professor, salários em defasagem, falta de suporte da família, etc. Mas há um propósito que me move. Creio que o que me motiva a continuar é saber que minha profissão me permite transformar a vida de alguns alunos. E normalmente me dou conta disso quando me encontro com ex-alunos que trazem relatos de aulas que os marcaram, e auxiliou em suas formações.
3. Qual o papel da tecnologia nas suas aulas e no engajamento dos estudantes?
A tecnologia enriquece bastante as aulas de biologia. Esclarece algumas lacunas do conteúdo e complementam o estudo e as aulas tradicionais. Hoje percebo a importância dela para dialogar com essa geração que está cada vez mais conectada. A tecnologia, com seus recursos inovadores, gera um engajamento relevante dos alunos nas aulas, além de gerar inclusão pois permite a integração com alunos que necessitam de algum suporte cognitivo ou acadêmico extra.
4. Como você enxerga a participação da família no desenvolvimento escolar dos alunos?
O mercado de trabalho tem colocado as famílias cada vez mais distantes da participação na vida escolar dos filhos. Na minha visão, é um dos maiores desafios atualmente. Hoje os pais pouco se integram com a escola e, na maioria das vezes, quando isso acontece é de forma negativa. Há muita cobrança, exigência, e pouca empatia e parceria. Em 12 anos de profissão percebo que a educação construída em casa é muito importante e efetiva. Ela é a base na formação de um indivíduo. Mas quando isso não é consolidado na família, o aluno demonstra isso na escola de diversas formas. Seja no comportamento ou no desempenho acadêmico. Acredito que a educação é uma construção social. Uma construção feita com a força e o empenho da família, Estado, escola, docentes e a sociedade.
5. Que recado você deixaria para a sociedade sobre o papel do professor?
Hoje quem decide ser professor, certamente faz essa escolha com o propósito de mudar o mundo, então acredito em uma sociedade que nos valorize e entenda nossa importância. Não é incomum ouvirmos que professores são referências para a vida e trajetória de muitas pessoas. Acredito que quando valorizamos um professor, valorizamos a educação e consequentemente a construção de um mundo melhor.
Com a palavra, Carolina Rocha Neves Felix
- Segmento em que leciona: Ensino Fundamental
- Cidade/Rede: Uberlândia/ Rede Municipal
- Uma palavra que define ser professor(a): Transformador
1. O que a levou a escolher a carreira docente e como tem sido a sua jornada?
Nunca tive aquela certeza absoluta de 'quero ser professora'. Me descobri ao longo da jornada. Escolhi fazer Letras por eliminação, começando em Uberaba e depois transferindo para a Unifran, em Franca. Como as grades eram diferentes, precisei refazer o primeiro ano. Pensei em desistir algumas vezes porque o curso era bem denso, mas finalizei.
O que me motivou inicialmente para a área de Letras foi o espanhol, por causa de um professor incrível que tive no ensino médio. Lecionei espanhol e português por muitos anos. Depois, emendei com a faculdade de Pedagogia. O trabalho é árduo, com rotinas de muitas horas que nos sugam física e psicologicamente. Mas é extremamente significativo quando você consegue atingir uma criança ou adolescente. Mesmo que não alcance a todos de imediato, conseguir impactar uma parcela já faz sentir que o dever foi cumprido.
2. Quais são os principais desafios enfrentados no dia a dia da sala de aula?
O maior desafio da rotina é a indisciplina e a falta de interesse dos alunos. Dar aula para alunos que não querem se dedicar e não dão valor ao que é proposto ou produzido é extremamente desgastante. A maioria demonstra indiferença aos conteúdos e até mesmo a abordagens diferenciadas.
Além disso, a infraestrutura das escolas públicas é cada vez pior, com a falta de recursos básicos. Outro grande obstáculo que desqualifica o nosso trabalho e afunda a educação é o sistema de progressão continuada. Somos cobrados para avaliar e dar notas, mas no final do ano os alunos não tem condição de progredir mas, de qualquer forma, vão para a próxima série.
3. Como as novas tecnologias têm impactado o ambiente escolar?
As novas tecnologias são muito bem-vindas e ajudam em várias esferas, mas a forma como são implementadas muitas vezes vira 'mais uma tarefa' na rotina já sobrecarregada do professor. Por outro lado, há o impacto do acesso desmedido das crianças à internet em casa. Elas chegam à sala de aula hiperestimuladas por conteúdos rápidos, sem limites impostos pelos pais, despreparadas para o convívio e desinteressadas pelo ritmo escolar. O acesso sem filtro torna a sala de aula tradicional muito menos atrativa para eles.
4. Como se dá a relação entre a família e a escola na sua realidade atual?
A participação da família é fundamental para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças. Quando família e escola caminham juntas, o aluno se sente mais seguro, motivado e valorizado.
No entanto, a realidade da comunidade onde atuo hoje mostra uma escassez enorme dessa parceria. Há uma falta de acompanhamento dos pais sobre o que os filhos estão estudando ou vivenciando. Em vez de parceiros, muitas vezes os pais enxergam o professor como um 'inimigo' ou transferência de responsabilidade, esperando que a escola dê conta de tudo sozinha. Quando não há essa base e incentivo em casa, o resultado na escola é muito complicado.
5. Qual mensagem você gostaria de deixar para as famílias e a sociedade?
Gostaria que as famílias soubessem que o trabalho do professor vai muito além de ensinar conteúdos. O professor planeja, orienta, acolhe, observa as dificuldades e potencialidades de cada aluno e busca estratégias para que todos possam aprender. A parceria com as famílias fortalece esse trabalho e contribui para uma educação mais significativa.
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Gostaríamos de agradecer às professoras Andreia e Carolina por trazerem suas visões e desafios para compartilhar no blog do Escola Games! O primeiro passo para integrar professor, escola e famílias, visando melhorar a educação e a convivência, é uma escuta atenta. Somos parceiros na educação das crianças e adolescentes e podemos transpor dificuldades e visões diferentes de mundo em busca de um objetivo maior: a educação e a cidadania. Isso só pode acontecer se todos fortalecermos os laços e o respeito mútuo!
Professores e famílias podem e devem se unir em prol da educação. Esse é o caminho!